Esta é uma dúvida muito comum. O termo “câncer” se refere aos tumores malignos, que têm um comportamento muito distinto dos tumores benignos, estes últimos tratados com mais facilidade.
O pseudomixoma peritoneal é uma condição rara que muitas vezes causa confusão entre pacientes e até mesmo alguns profissionais da saúde.
O pseudomixoma peritoneal, que significa o acúmulo de mucina (uma espécie de gelatina) no abdômen, normalmente se origina de um tumor do apêndice.
A mucina é uma substância gelatinosa que pode se espalhar pelo interior da cavidade abdominal, levando à formação de massas e ao aumento do abdômen.
A maioria desses tumores são benignos e são denominados “neoplasia mucinosa de baixo grau” ou “neoplasia mucinosa de alto grau”, dependendo das características celulares observadas ao microscópio.
Esses tumores, apesar de benignos, podem se disseminar pelo abdômen e causar um pseudomixoma. A disseminação ocorre devido à ruptura do tumor inicial, liberando mucina na cavidade abdominal.
Esta mucina pode aderir a diversas superfícies dentro do abdômen, como o peritônio, que é a membrana que reveste internamente a cavidade abdominal e recobre os órgãos nela contidos.
Leia também: O pseudomixoma é uma doença comum?
Apesar de parecer estranho, a maioria dos pseudomixomas não é câncer, mas sim a disseminação muito especial de um tipo de tumor benigno do apêndice.
Esta condição, apesar de benigna, pode ser bastante séria, pois a mucina pode causar complicações como obstruções intestinais e dificuldades respiratórias devido ao aumento de volume abdominal.
O tratamento envolve a remoção cirúrgica da mucina e do tecido afetado, seguido de quimioterapia intraperitoneal para eliminar quaisquer células tumorais remanescentes.
Claro que existem exceções. Cerca de 20% dos casos de pseudomixoma são causados por “adenocarcinomas do apêndice”, que são tumores malignos – um câncer. Os adenocarcinomas são tumores que têm a capacidade de invadir tecidos próximos e se espalhar para outras partes do corpo (metástase).
Mesmo assim, apesar da relativa maior gravidade, a doença continua sendo tratada como pseudomixoma, e, com um diagnóstico precoce e um tratamento adequado, há uma alta chance de cura.
O pseudomixoma peritoneal é uma doença extremamente rara, com uma incidência anual estimada em 1/1.000.000, ou seja, cada um milhão de pessoas, em um ano apenas uma terá pseudomixoma.
Para colocar isso em perspectiva, doenças como o câncer colorretal e a colelitíase (cálculos na vesícula biliar), que são consideradas comuns, afetam respectivamente cerca de 1 em 22 e 1 em 10 indivíduos durante a vida.
O pseudomixoma peritoneal é caracterizado pela presença de ascite mucinosa ou implantes na cavidade peritoneal. Geralmente, origina-se de lesões no apêndice ou no ovário.
A doença é normalmente diagnosticada depois dos 40 anos. Em 30 a 50% dos casos, os pacientes apresentam distensão abdominal progressiva, muitas vezes confundida com ganho de peso.
O diagnóstico do pseudomixoma peritoneal pode ser um desafio, pois os sintomas são geralmente sutis e não específicos.
Além da distensão abdominal, outros sintomas menos comuns incluem dor abdominal, perda de peso, sintomas urinários, obstipação, vómitos e dispneia.
O diagnóstico pode seguir-se à descoberta de uma massa ovárica nas mulheres ou desenvolvimento recente de hérnia inguinal, apendicite ou oclusão intestinal.
Os procedimentos diagnósticos mais utilizados para o diagnóstico e estadiamento do pseudomixoma peritoneal são a tomografia computadorizada do tórax, do abdome e da pelve, punção abdominal, laparoscopia diagnóstica e exames laboratoriais.
A tomografia computadorizada pode oferecer imagens da lesão inicial do tecido afetado, além de sinais da mucina na cavidade abdominal.
Com o avanço da tecnologia médica e a maior disponibilidade de exames de imagem, não é incomum que o pseudomixoma peritoneal seja descoberto incidentalmente.
Por exemplo, uma pessoa pode realizar uma ressonância magnética para investigar uma dor nas costas ou uma tomografia computadorizada solicitada por um urologista para investigar uma pedra no rim.
Nesses casos, os exames podem revelar sinais de pseudomixoma peritoneal, mesmo que essa não fosse a condição inicialmente suspeitada.
Leia também: O pseudomixoma é considerado câncer?
Os exames de imagem, como a tomografia computadorizada e a ressonância magnética, são ferramentas valiosas para o diagnóstico do pseudomixoma peritoneal.
Eles podem oferecer imagens da lesão inicial do tecido afetado, além de sinais da mucina na cavidade abdominal.
Esses exames permitem uma melhor avaliação das lesões devido à sua capacidade de resolução espacial, imagens multiplanares e diferentes sequências (na ressonância magnética).
Em resumo, o pseudomixoma peritoneal é uma doença rara e seu diagnóstico é frequentemente um desafio devido à sua apresentação clínica não específica.
Comparado a doenças mais comuns, como o câncer colorretal e a colelitíase, a raridade do pseudomixoma peritoneal é notável.
No entanto, com a conscientização e o diagnóstico precoce, os pacientes têm a oportunidade de receber o tratamento adequado e melhorar sua qualidade de vida.
A realização rotineira de exames de imagem para outras condições pode facilitar a descoberta do pseudomixoma peritoneal, reforçando a importância de realizar exames de saúde regulares.
O pseudomixoma peritoneal é uma condição rara e complexa que requer cuidadosa seleção do método de tratamento para garantir a melhor chance de cura possível. Nesse cenário, a abordagem laparoscópica (por video) emergiu como uma técnica promissora que pode ser empregada em situações muito específicas.
Apesar de atraente como opção, é importante que os pacientes saibam que se trata de uma técnica aplicável na minoria dos casos, cerca de 5% deles.
Pode ser aplicado em pacientes cujo pseudomixoma é de baixo grau (baixa agressividade) e tem um Índice de Carcinomatose Peritoneal (PCI) baixo. O PCI é uma medida que avalia a extensão da disseminação do câncer no peritônio. Quanto menor o PCI, maior a chance de uma citorredução completa, ou seja, a remoção cirúrgica total do tumor.
O procedimento laparoscópico se destaca por suas vantagens, incluindo mais conforto no pós-operatório, recuperação mais rápida e menor risco de complicações, comparado à cirurgia aberta. Entretanto, a técnica requer uma equipe com habilidades laparoscópicas avançadas e familiaridade com esta doença rara.
Em casos muito excepcionais e selecionados, a abordagem laparoscópica pode então ser combinada com a HIPEC.
Novamente, é importante salientar que a abordagem laparoscópica com HIPEC é restrita a uma pequena parcela de pacientes. Para os casos mais avançados de pseudomixoma, com alto PCI e tumores de alto grau, a cirurgia aberta, ou laparotomia, continua sendo o padrão internacional de tratamento.
A laparotomia permite uma exploração abrangente da cavidade abdominal, facilitando a remoção completa dos tumores. Embora seja uma operação mais invasiva, a cirurgia aberta oferece a chance de um controle mais efetivo da doença nos casos mais complexos.
A decisão entre a abordagem laparoscópica e a cirurgia aberta depende de uma análise cuidadosa do quadro clínico do paciente, considerando as características do tumor, a extensão da doença e a experiência da equipe médica.
Se você ou alguém que conhece foi diagnosticado com pseudomixoma peritoneal ou tem dúvidas sobre as opções de tratamento, não hesite em entrar em contato conosco. Nossa equipe médica especializada está pronta para oferecer orientação e informações detalhadas para garantir a melhor abordagem para o seu caso.
No Brasil, a quase totalidade dos cirurgiões envolvidos no tratamento do pseudomixoma são cirurgiões oncológicos de formação. Contudo, a formação de cirurgia oncológica, por si só, não é suficiente em termos de preparo do profissional. O treinamento para se realizar citorredução com HIPEC é longo, idealmente de um ou dois anos, e é normalmente realizado fora do Brasil.
– Aonde fizeram o treinamento para realizar a HIPEC?
– Quantos procedimentos com HIPEC realizaram até hoje? Quantos destes eram para pseudomixoma?
– Quantos procedimentos de HIPEC, especialmente para pseudomixoma, a equipe realiza por ano?
A chamada “curva de aprendizagem” para se tratar pseudomixoma é longa. Segundo o maior estudo relacionado ao assunto publicado até hoje (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/32833761/) é recomendado que o cirurgião principal tenha realizado pelo menos 100 procedimentos, e que trate pelo menos 30 pacientes por ano com esta técnica.
Os estudos mostram que os pacientes tratados em centros com cirurgiões com menos experiência que isto, e que realizem a cirurgia com uma frequência menor, podem esperar resultados inferiores, com mais risco de mortalidade, complicações da cirurgia, e redução na chance de cura da doença.
Historicamente o pseudomixoma peritoneal sempre foi descoberto em fases muito avançadas da doença. A mucina (gelatina) que o tumor produz, se acumula ao longo de muitos meses, por vezes anos.
A impressão que a pessoa tem é de que está engordando, e não é incomum que tente algum tipo de dieta – obviamente sem sucesso.
Leia também: O pseudomixoma é considerado câncer?
Este quadro geral mudou muito nos últimos anos, principalmente nos últimos dez anos. Hoje, o uso de exames de imagem é mais generalizado. É normal as pessoas serem submetidas todo ano a uma ecografia do abdômen (principalmente as mulheres), ou até a exames mais sofisticados como tomografias ou ressonâncias.
Na nossa experiência tivemos pacientes que descobriram o pseudomixoma após fazerem uma ressonância para investigar uma dor nas costas, ou após tomografia solicitada pelo urologista para investigar uma pedra no rim.
Quando a doença é descoberta desta forma, por meio de exames solicitados por outra razão, a tendência é fazer o diagnóstico em uma fase muito mais precoce da doença, facilitando o tratamento.
Uma última situação que vale a pena comentar é a dos pacientes que descobrem o pseudomixoma após serem operados por suspeita de apendicite, aquela infecção do apêndice que precisa ser tratada com cirurgia em regime de urgência. Durante o procedimento, o cirurgião acaba descobrindo a mucina dentro da cavidade abdominal.
Se você fez o diagnóstico do pseudomixoma peritoneal em umas das duas últimas situações descritas, exame solicitados por outra causa ou cirurgia por suspeita de apendicite, saiba que existe uma excelente possibilidade de ter sido feito um diagnóstico relativamente precoce, e as chances de sucesso no tratamento são ótimas.
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